Herberto Helder. Una blanca oscuridad. El Norte de Castilla. 22 de Noviembre de 2014.

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Pessoa en gallego, al fin.

2014-11-04 11.33.55

Mucho hemos tardado en tener, por fin, una traducción gallega de Pessoa que esté a la altura de los versos imborrables del autor portugués. Por fin podemos dejar a un lado este lamentable olvido gracias al inmejorable trabajo de traducción y selección llevado a cabo por Carlos Taibo, que más allá de penetrante pensador y profesor de ciencias políticas siempre puso una vela a Don Fernando, especialmente desde su magnífica reunión de ensayos titulada  ‘Parecia Não Pisar o Chão’. Con la presente obra, se salva un olvido imperdonable y se abre un inmejorable momento para repensar las relaciones, no apenas luso-galegas o hasta ibéricas si se nos permite ser un poco más anchos, sino la importancia o relevancia “literaria” que lo gallego tuvo en la obra-vida pessoana.

No resulta muy conocido que uno de los más importantes cómplices en la aventura heteronímica pessoana fue Alfredo Guisado, poeta de origen gallego, miembro del grupo de Orpheu, de gran autenticidad en su escritura. Poeta y amigo de Pessoa que prestó apoyo a la necesaria dotación de carnalidad a los otros-yo pessoanos, especialmente a Campos y Caeiro. Basta recordar dos breves textos de Pessoa:

“O Orpheu foi logo para a typographia, ficando eu apenas a completar o “Opiário” do meu personagem Alvaro de Campos, que embora hypoteticamente escripto antes da “Ode Triunfal” o foi realmente depois. O numero foi de facto bem organizado. Começava, àparte o prefacio, com uns poemas de Sá-Carneiro e fechava com a “Ode Triumphal” do meu velho e inexistente amigo Alvaro de Campos. E, a proposito de Ode Triumphal. Para dar, mesmo para os proximos de nós, uma idéa de individualidade do Alvaro de Campos, lembrei ao Alfredo Guisado que fingisse ter recebido essa colaboração da Galliza; e assim se obteve papel em branco do Casino de Vigo, para onde passei a limpo as duas composições. Lembro-me ainda do Antonio Ferro e Augusto Cunha, então muito novos, e que frequentemente iam pelos Irmãos Unidos, lerem atentamente, sòsinhos numa mesa ao fundo, essas composições inesperadas; assim como me lembro do Almada Negreiros, depois de ler com enthusiasmo a Ode Triumphal, me saccudir fortemente pelo braço, vista a minha falta de enthusiasmo, e de me dizer quasi indignado: “Isto não sera como v. Escreve, mas o que é é a vida”. Senti que só a sua amisade me poupava à affirmação de que Alvaro de Campos valia muito mais do que eu.

(Sensacionismo, p. 89, post 1922)

 “[…]Duas notas curiosas e engraçadas, ambas com respeito ao mesmo assunto:

Há dias passava eu de carro na Avenida Almirante Reis. Levanto os olhos por acaso, leio no cabeçalho de uma loja: Farmácia A. Caeiro.

A outra é melhor. Como a única pessoa que podia suspeitar, ou, melhor, vir a suspeitar, a verdade do caso Caeiro era o Ferro, eu combinei com o Guisado que ele dissesse aqui, como que casualmente, em ocasião em que estivesse presente o Ferro, que tinha encontrado na Galiza «um tal Caeiro, que me foi apresentado como poeta, mas com quem não tive tempo de falar», ou uma coisa assim, vaga, neste género. O Guisado encontrou o Ferro acompanhado de um amigo caixeiro-viajante, aliás. E começou a falar no Caeiro como tendo-lhe sido apresentado, e tendo trocado duas palavras apenas com ele. «Se calhar é qualquer lepidóptero» disse o Ferro. «Nunca ouvi falar nele … »

E, de repente, soa, inesperada, a voz do caixeiro-viajante: «Eu já ouvi falar nesse poeta, e até me parece que já li algures uns versos dele». Hein? Para o caso de tirar todas as possíveis suspeitas futuras ao Ferro não se podia exigir melhor. O Guisado ia ficando doente de riso reprimido, mas conseguiu continuar a ouvir. E não voltou ao assunto, visto o caixeiro-viajante ter feito tudo o que era necessário.

[…]”

(Carta a Armando Côrtes-Rodrigues – 4 Out. 1914)

No es casualidad, tampoco, que la única entrevista efectuada a Caeiro fuese realizada en Vigo. Si Caeiro pudo pasar por gallego es sólo por una cosa. Quizá Caeiro nos recuerda las cantigas de amor galaicoportuguesas.

Tal como ya anunció en 1914, Alejo Carrera en el semanario Vida Gallega, como preludio del amplio recibimiento que el modernismo portugués tuvo en Portugal, gracias, fundamentalmente a la mediación de Guisado: “Posee el idioma portugués, como el gallego, un don especial que hace que la poesía lusitana tenga un privilegio sobre la poesía de otros muchos idiomas: la melodía.” Y quizá como decimos sólo Carlos Taibo podía mostrar esta semejanza melódica en una traducción tan compleja y precisa como la que nos presenta en este libro.

Gracias Carlos. Que la ironía no nos abandone nunca.

P.S Y todo sin olvidar que Pessoa sabía muy bien, como parece necesario recordar hoy, la importancia que Galicia tiene y siempre tuvo en el papel de una hipotética y utópica reintegración federal de los estados ibéricos:

“Já o problema da Galiza se não assemelha ao problema catalão. O incerto separatismo galego também não pode visar a independência da região, mas já pode visar, sem crime de lesa-Ibéria, a integração no estado português. Há tantas razões para a Galiza ser região espanhola, como para ser parte de Portugal (não digo “região portuguesa”, porque Portugal é uno). Integrada na Espanha, a Galiza segue uma continuidade histórica e não perde pé no valor civilizacional. Integrada em Portugal, fica parte do estado a que por natureza e raça pertence, e também não perde pé no valor civilizacional, porque passa a ser parte de outra nação europeia definida civilizacionalmente.” Ibéria, p. 68. /c.1918/.

Y que Pessoa también sabía muy bien lo que sabe Carlos Taibo: “[…] Galician being, as a matter of fact, an undeveloped Portuguese.”